quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Perseu e Andrômeda



  Sinopse: Acrísio, o rei de Argos, descobre através da pitonisa de Delfos que será morto por seu próprio neto. Por isso enclausura sua única filha, Danae. O que não impede que justamente Zeus se interesse por ela. E da união entre a mortal e o senhor do Olimpo nasce Perseu, o herói que abaterá a górgona Medusa.
   Perseu está destinado ao encontro com Andrômeda, a audaz princesa da Etiópia, uma jovem capaz tanto de desafiar os costumes de seu reino como de se oferecer em sacrifício para salvá-lo.
   A obra envolve, entre temas tradicionais da cultura da antiga Grécia, a questão da inexorabilidade do Fado. E, no curso da narrativa, comparecerão diversos deuses e seres da mitologia, tais como as velhas greias, Atena, Hermes, Poseidon e o titã Atlas.

  Este livro virtual está disponível no Recanto das Letras:




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Rosa e a Cruz



  Sinopse: Por volta do ano 1000 da era cristã, em um universo paralelo ao nosso, catástrofes naturais e ataques de demônios desolaram a humanidade e alagaram boa parte das terras, reduzindo as áreas habitadas a ilhas de diferentes dimensões, que foram se encastelando cada vez mais como defesa ao avanço das hordas do mundo inferior.

  Nesse cenário, para combater essas violentas criaturas, começaram a surgir guerreiros-sacerdotes no seio da Igreja, que logicamente não faziam uso de nenhuma forma de magia, proibida pelos padres, mas dotados de força e habilidades sobrenaturais que só podiam ser explicadas pelo sangue de Cristo introduzido em seus corpos. Denominados cruzados (nenhuma relação com os que existiram em nossa realidade) e investidos pelos padres vermelhos, estes os encarregados de guardar o Santo Cálice, pela graça divina recuperado em tempos tão difíceis, passaram a combater os demônios e contribuíram, com sua imagem de salvadores, para o estabelecimento do catolicismo romano como religião realmente católica, ou seja universal, a população de descrentes e seguidores de outros cultos se esvaindo pouco a pouco diante da única fé que dava mostras de ser verdadeira.

  Chegamos ao ano de 2012: os cruzados continuam a atuar, exterminando os seres do Inferno, que insistem em invadir a Terra, e punindo hereges, tornando-se assim fonte de riquezas para a Igreja, considerando que todo serviço requisitado aos padres vermelhos é pago, a menos que diretamente solicitado por estes em razão de alguma emergência.

  O poder se encontra todo nas mãos dos eclesiásticos; cada ilha possui um ou mais senhores, nobres que as governam, mas todos estão subordinados à Igreja. O tribunal da Inquisição é fortíssimo e atua com rigidez.

  Os cruzados permanecem sempre num número total de 12, em referência aos doze apóstolos, cada um desenvolve uma habilidade específica e suas armas e armaduras também são banhadas no sangue de Cristo e só podem ser restauradas e aperfeiçoadas por padres vermelhos ferreiros, espacializados nessa manutenção.

  Depois que se tornam cruzados, se têm menos idade envelhecem “naturalmente” até os 30 anos e se têm mais podem parar na idade em que estão ou rejuvenescer. Caso envelheçam por escolha própria, o que também é possível (havendo os que abdicam da juventude para não se mostrarem vaidosos), bastando a vontade, podem recobrar as aparências de jovens se mudarem de idéia. Morrem somente em batalha, resistentes a qualquer tipo de doença. Dormem pouco, alertas até durante o sono e cochilando quando querem em qualquer posição. Quase não precisam comer, só a cada sete dias, e aprendem com facilidade o idioma que desejarem.

  A Igreja pode autorizar o retiro de um guerreiro se este for digno de confiança e sob a condição que colabore quando requisitado, por exemplo treinando um aprendiz.

  Os maiores questionamentos tomam corpo porque os cruzados que caem no pecado acabam sendo possuídos por espíritos infernais (e de considerável poder), a exigência moral por isso, teoricamente, muito maior para esses homens. Contudo, o argumento de que Cristo deseja pessoas virtuosas, e que portanto seu sangue abandona o corpo do guerreiro quando este pára de praticar o bem desinteressado ao próximo, tornando sua carne mais vulnerável do que a de um humano comum à invasão demoníaca, como punição por sua impiedade, é contestado por testemunhas de ações claramente cruéis, arbitrárias e anti-cristãs, por parte de tais “paladinos”, que não resultaram em possessões. Quais seriam os motivos ocultos? Deus estaria testando a fé dos homens? O sangue do Salvador não os faz de forma nenhuma santos, apenas seres dotados de dons sobre-humanos que os capacitam a combater as hordas de Lúcifer; dádivas que são assim espadas de dois gumes. Ninguém, no entanto, ousa questionar abertamente a autoridade da Igreja sem sofrer as conseqüências. Em uma das mais claras ambigüidades deste mundo, como os seres humanos podem às vezes temer seus protetores?

  Sob este fundo, a perspectiva presente no livro do Apocalipse se torna uma revelação concreta: qual o papel do ser humano, que tenta resguardar a si mesmo, no conflito entre os anjos e os demônios, iniciado no princípio dos tempos? Para reflexão, as palavras de Paulo de Tarso: “não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas e contra as hostes espirituais da maldade nas próprias regiões celestes.”

   Conheça esta obra neste blog, podendo adquiri-la com o próprio autor ou nos seguintes links:


http://www.clubedeautores.com.br/book/142279--A_Rosa_e_a_Cruz

http://www.clubedeautores.com.br/book/142280--A_Rosa_e_a_Cruz

http://www.clubedeautores.com.br/book/142281--A_Rosa_e_a_Cruz#.U2fy9aLHgZM

http://www.clubedeautores.com.br/book/157604--A_ROSA_E_A_CRUZ#.U2fy_aLHgZM

http://www.clubedeautores.com.br/book/157605--A_ROSA_E_A_CRUZ#.U2fzAaLHgZM

   

  Para leitura online, seguem os links:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4180727

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4182156

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4795262

http://pt.scribd.com/doc/128586059/A-Rosa-e-a-Cruz-Vol-1

http://pt.scribd.com/doc/128586228/A-Rosa-e-a-Cruz-Vol-2


sábado, 21 de dezembro de 2013

Atento



  Cidade brilhante de areia. Em seu centro, um palácio; ao seu redor, um rio que na verdade era um dragão d'água, que começou a girar na visão do monge: observou bem a mandala, antes que fosse desmanchada pelo sopro do mestre. Às suas costas, a luz e o calor da tocha acesa; à sua frente, o velho diante dos portões vermelhos, que pareciam feitos de fogo metálico. Quando estes iriam se abrir? Decidiu fechar os olhos, mergulhando nas sutilezas da escuridão, eventualmente interrompida pelas centelhas de sonho e despertar.


A queda



I

Raimundo se considerava um exemplo de guerreiro devoto. Um defensor da cristandade. Um baluarte contra os hereges e os infiéis. Reputava-se absolvido de seus pecados não só por suas lutas contra os mouros, mas também por ter uma vez percorrido um dos caminhos para Compostela.
Lembrava-se com perfeição de sua parada em Orléans, na Igreja de São Sansão, onde admirara um prato que se dizia que fora utilizado na Última Ceia.
Atravessara a Ponte da Rainha, ao seu lado outros homens em santo esforço, revestidos por túnicas grosseiras e pesadas, trazendo consigo bastões abençoados. Raimundo, contudo, não abrira mão de sua espada, principalmente por considerar que, como guerreiro que era, devia garantir a proteção dos demais peregrinos.
Fizera questão de ir a pé, enquanto alguns nobres iam a cavalo e os gravemente enfermos, em busca do milagre da cura, eram levados em liteiras. Ao menos naquela ocasião, os homens de posses ajudavam os humildes, dando-lhes eventualmente água e comida.
Como sempre rígido e feroz, Raimundo não admitia trapaceiros. Por isso, cortara as mãos de dois vendedores inescrupulosos, que, em uma parada em um vilarejo, tentaram lhe vender pão velho e carne apodrecida.
Nas hospedarias, mantidas pelas doações dos viajantes, tinham garantidos pão e carne de qualidade razoável e uma dose de vinho tinto. Erguidas do lado de fora das cidades muradas, eram a melhor opção de abrigo quando estas fechavam as portas ao escurecer. Evitavam-se, em seu interior, os lobos; com relação aos ladrões, Raimundo tivera que matar um, que tentara à noite roubar pertences dos peregrinos quando acreditara que estavam todos dormindo. Sorrateiro, fora surpreendido pela audição apurada do espadachim, que não dormia com facilidade, e que o executou sem a menor compaixão, depois pedindo a Deus para que tivesse piedade de sua alma larápia.
Na catedral de Compostela, encontrara a igreja apinhada de gente, além das pessoas que o tinham acompanhado em sua jornada, que entraram da maneira mais afobada. Raimundo era o único a manter uma certa frieza, seus passos lentos, graças a seu porte não arriscando ser pisoteado pelos que estavam ansiosos para tocar as relíquias.
Permanecera durante a vigília noturna de 25 de Julho, ocasião em que se celebrava o martírio de São Tiago com música e rezas exaltadas. O guerreiro, apesar de suas poucas palavras e de seus movimentos comedidos no dia a dia, orava com fervor.
Na praia próxima, fora com outros recolher conchas de vieiras. Ali se dizia que, de forma milagrosa, arribara um barco de pedra com o corpo do grande santo. Associavam-se as conchas a São Tiago em razão de uma lenda segundo a qual um cavaleiro que viera de terras distantes, na intenção única de orar diante da tumba do santo, sofrera no caminho o ataque de uma serpente que provocara o descontrole de seu cavalo: este seguira em galope furioso até se atirar na água do mar.
O cavaleiro encomendara sua alma a São Tiago quando sentira que estava sucumbindo ao afogamento; no entanto, pouco depois, seu corpo emergira, são e salvo, recoberto de conchas de vieira. Eis portanto um dos milagres atribuídos ao santo, e histórias desse tipo reforçavam a fé de Raimundo, que não se conformava com o fato de nem todos aderirem à cristandade, parecendo-lhe evidente que era superior a qualquer outra crença, a única que contava com milagres reais e grandiosos.
Munido de sua espada e de sua fé, fora para a cruzada. Confrontara, entre os mouros, seus lanceiros montados. Devido aos ágeis arqueiros de couraças laminadas, encarara situações difíceis, sentindo um grande prazer ao arrebentar seus elmos de ferro sobre coifas de malha quando conseguia se aproximar. Protegia-se com seu escudo, no qual a cruz tinha destaque, contando ao seu lado com guerreiros de diferentes estilos e proveniências, dos soldados de proteções simples, feitas de couro endurecido, aos cavaleiros de armaduras completas, embora alguns usassem botas sem esporas, macias, como as dos turcos.
Sempre lutara por Cristo com bravura. Por isso, não conseguia compreender o porquê de sua situação de momento, apesar de sua partida do mundo ter se dado de forma vergonhosa para um guerreiro: no auge de uma batalha, combatendo contra o turco Sulaiman, seu peito experimentara uma dor súbita, avassaladora; caíra de joelhos e o pior fora, ao erguer sua cabeça, ver o olhar altaneiro do inimigo, que não sorria, mas que o cruzado deduziu que por dentro devia estar gargalhando. Teria preferido morrer com a lança do maometano encravada em seu coração; um final mais digno de um valoroso homem de guerra e de fé do que uma parada cardíaca.
Agora, contudo, era a agonia que rasgava seu peito. Ouvia urros, gritos, gemidos, ganidos, uivos, rugidos; e não eram apenas de animais, como de seres humanos e de homens e mulheres cujos corpos eram pela metade bestas.
Abutres se atiravam em montes de lama e fezes; alguns tinham rostos de companheiros seus, reconhecendo-os por mais disformes e sujos que estivessem. De buracos, emergiam vermes e serpentes; cadáveres eram mordidos e roídos sem pausa, reconstituindo-se com uma rapidez assustadora, nunca havendo fim para a consumição. Não haveria também paz para as cabanas atacadas por seres grosseiros que pareciam ogros, seus habitantes arrancados à força e espancados; depois eram jogados novamente em suas moradias toscas, onde seus ferimentos e hematomas desapareciam ardendo, para posteriormente serem mais uma vez surrados.
Das cavernas, estrondavam ursos famintos. Corpos grudados se tornavam um só amontoado de carne. E havia os que mesmo nesse contexto sangrento se entregavam à cópula sem freio, como que tentando encontrar algum alento, um mínimo alívio: eram interrompidos e massacrados, atirados em arbustos espinhentos, seus membros transformando-se em galhos ressequidos.
Uma vida dedicada à guerra que julgara santa: não se casara; não tivera filhos. Seguira sendo um jovem impetuoso. E era assim que Deus o recompensava? Não era justo que fosse jogado nos domínios de danação eterna! Sequer aceitava a possibilidade do Purgatório: como soldado da Cruz e peregrino de São Tiago, sua alma só podia ser imaculada! Devia ser um derradeiro teste, uma última tentação do Demônio, que procurava arrastar sua alma para longe do Paraíso ao induzir-lhe a fúria e o medo, enfraquecendo sua fé.
Não se dispôs a ajudar ninguém ali. Nem tinha a intenção de lutar, aguardando a descida de um anjo do Senhor. Até que começou a ser agredido. A onda de violência foi crescendo, cada vez mais seres ao seu redor, e isso o encheu de ira. Sua espada estava de volta às suas mãos, não tinha mais escudo, e tornando a espalhar sangue vieram-lhe tenebrosas recordações.
Primeiro, de sua vida na Terra: a cidade que incendiara, junto a outros “guerreiros santos”, por haver ali suspeita de hereges; crianças, velhos e mulheres grávidas não foram poupados, tudo porque, segundo se dizia, acreditavam que o verdadeiro Deus não era o que expulsara Adão e Eva do Paraíso, este sendo na realidade um demiurgo corrompido.
Em outra ocasião, devastara um mosteiro no qual, segundo o tinham informado, ocorriam orgias. Passara todos os monges a fio de espada, apoderando-se, com seus companheiros, de todas as riquezas e tesouros ali contidos. Nada injusto ou desonesto, afinal eram pecadores.
Seus únicos pecados graves, acreditava, estavam relacionados à luxúria: gastara muito com prostitutas: além disso, possuíra mulheres sarracenas que tinham oferecido seus corpos em troca da libertação de maridos aprisionados; sendo que nem sempre os libertara...Afinal, de que valiam as vidas de infiéis? Nenhum deles era merecedor da palavra de um cruzado.
Todas as vezes que julgara ter caído em tentação, na sequência pedira perdão a Deus; e suas ações e sua fé já deviam tê-lo purificado totalmente! O trajeto de devoção até Compostela não podia ter sido em vão; nem todas as lutas na cruzada!
Veio-lhe de súbito a memória do que lhe ocorrera entre sua morte e a chegada àquele lugar horrível: acreditara ter havido apenas um intervalo de escuridão, o silêncio das trevas quebrado pelos sons do tormento, mas não fora assim.
Entre cortinas de sombras, vira um homem feio, todo de negro, conquanto seu rosto fosse pálido; seus cabelos brancos rareavam e apenas um de seus olhos, de fulgurante azul, estava aberto. Em suas mãos, anéis de ouro, prata e pedras preciosas. Dissera-lhe, com clareza: “Eu o estava esperando. Em breve, será meu melhor soldado.”, e ouvira vozes distorcidas, entre as quais a de um comandante seu que comemorara sua morte, afirmando estar cansado de seus excessos.
O sombrio desconhecido sorrira com seus dentes afiados, e depois disso sim que tudo ficara escuro, o que só fora rompido por um vórtice negro salpicado de sangue; este o sugara para onde estava no presente, para aquele lugar desolado, onde toda a esperança estava perdida, em meio a odores que pareciam querer lhe induzir o vômito; inútil clamar pelo Salvador, pelos santos ou pelos anjos.
Chegara com sua armadura inteira, sob o céu viscoso e purulento.
E voltava a se entregar à luta, porém não mais por “Deus”; nem para sobreviver, afinal já estava morto: o prazer proporcionado pela ira e pela violência, que na verdade fora o que sempre o guiara, tornou-se explícito; um coração batia forte, dominando seu sorriso que se banhou em sangue, não sendo mais o pequeno animal vermelho e engaiolado que o traíra, devorando seu corpo, bloqueando seu voo.
O coração de sua alma, ou seja lá o que fosse, o empurrou à total imersão no combate.
No entanto, mesmo naqueles domínios sem trégua, veio o cansaço. Uma fumaça sangrenta, surgida aparentemente sem explicação, tomara conta do lugar. Seus movimentos foram ficando lentos. Sua armadura pesava demais. E veio a fome, que porém logo foi invadida pela náusea, seu estômago vazio embrulhando com os odores de massacre. Teve saudades de suas caçadas, após as quais podia apreciar sem interferências a carne saborosa de um javali ou de um cervo.
Todo sangue passou a lhe causar repulsa; seu abdome dava a impressão de se contorcer e borbulhar. Abruptamente, viu-se cercado por seres com chifres e outros com rostos de porcos do mato. Alguns cuspiram em seu rosto. De terceiros, mais atrás, despencavam pedaços de seus corpos, entre dedos, olhos, orelhas e narizes; pareciam acreditar que, caso se alimentassem da “carne” do cruzado, poderiam se estabilizar. Suas aparências eram variadas e, embora estivessem em desespero, locomoviam-se com extrema lentidão. Em contraste, havia guerreiros com faces de hienas, que chegaram gargalhando e atacavam tanto com mordidas como com armas, mostrando-se hábeis e velozes. Um destes conseguiu acertar a barriga de Raimundo com uma flecha, atravessando o metal da armadura. Aquela região queimou como nunca lhe ocorrera antes.
O prazer pela fúria estava chegando ao fim; agora era apenas dor.
Um homem que nunca amara e nunca fora amado: sua mãe morrera ao dá-lo à luz e seu pai culpara-o pela morte da esposa, ainda que nunca tivesse declarado isso explicitamente; cruel e autoritário senhor de terras, repetira durante toda a sua infância que era uma vergonha ter um filho fraco, espancando-o constantemente e proibindo que seus servos cuidassem das feridas do menino. Talvez por isso Raimundo tivesse passado toda a sua vida buscando afirmar sua força, ainda que excessivamente, encontrando na religião um subterfúgio, uma justificativa para suas ações, que visavam provar a todo custo que seu pai estava errado.
“Você sentiu muita alegria quando o seu pai morreu, não sentiu?”, um dos demônios (ao menos era o que lhe pareciam) pressionou-o com seu hálito fétido e sua ameaçadora arcada dentária. “A sua vontade era de rir muito, mas teve que se conter...Não estou dizendo a verdade? Confesse!”
Raimundo teve um sobressalto. Aquela criatura desprezível sabia sobre ele; e viu nos olhos da aberração seu pai no leito de morte, ossudo e fraco, a sombra do que fora um dia, a receber a extrema unção com um semblante de desprezo, o rosto virado, recusando-se a olhar tanto para o padre como para o filho, que não conseguia chorar.
Mesmo depois que Raimundo se tornara um cavaleiro valente, nunca ganhara uma palavra de apoio ou felicitação. Sempre olhares frios, silêncio ou palavras ríspidas. Chegara a jogar no chão a cruz que o filho lhe dera de presente uma vez, pisoteando-a.
O ódio fez com que o ex-cruzado recuperasse suas energias. Não por prazer, mas por puro ódio, se reergueu e, sentindo uma força tremenda, algo sobre-humano, jamais tendo experimentado alguma coisa semelhante, retomou sua batalha.
Nenhum ser ali era mais páreo para ele. Foi arrasando tudo à sua volta. Suas feições humanas começavam a se dispersar. E, em um apenas aparente paradoxo, após ser decapitada, sorriu a cabeça do demônio que lhe falara sobre o que talvez tivesse sentido com a morte de seu pai...

II

Após matar um enorme urso negro, Raimundo entrou em uma das cavernas. Não tinha rumo. Não tinha para onde ir. Mas não iria ficar parado, avançando pela escuridão rochosa. Surpreendeu-se, depois de cortar em pedaços alguns lobos vermelhos e seguir adiante em um corredor de arestas pedregosas, ao se deparar com um espaço de belos cristais. Não pareciam ter cor definida, ora azuis, ora rubros, ora violetas, ora amarelos. Ficou admirando-os, por alguns instantes permanecendo com a mente vazia, esquecendo-se tanto do presente como do passado. Isso até que se estabilizaram em vermelho e começaram a mostrar imagens que compreendeu serem posteriores à sua morte. Impossível saber quanto tempo se passara na Terra desde que chegara ali. Viu uma acachapante derrota dos cristãos: e, como resultado, cruzados prisioneiros, uma minoria, a maioria mortos, lacerados, com as cabeças abertas, esmagadas ou separadas dos corpos, as gargantas rasgadas, ossos partidos, ferimentos que pingavam, peles esfoladas, faces congeladas no horror, entre estas reconhecendo a do comandante que preferira vê-lo morto...
Com uma expressão a princípio apenas atenta, foi gradativamente abrindo um sorriso; e não só em relação àquele que comemorara seu fim: seu ressentimento se estendia a todo o exército cristão; a todo o cristianismo; se Cristo não o salvara, se Deus não o queria mais, atirando-o no tormento eterno, por que deveria desejar o bem aos que lutavam pela cruz? Uma luta vã, inútil, incapaz de comover o Senhor do Céu.
Soltou um brado que foi um misto de gargalhada e entrecortado urro de dor; seus olhos ficaram tão vermelhos quanto os cristais, que de súbito também adquiriram olhos, desaparecendo as imagens que estavam sendo exibidas. Todos o observavam.
Ao se dar conta disso, Raimundo foi invadido por uma repentina vergonha, e depois por uma raiva indomável, que fez com que se lançasse contra eles, ofuscado então por uma abrasadora claridade dourada, que provocou a abertura de feridas em seu corpo. Como se não bastasse, o sangue jorrou; a ardência era insuportável.
Quando menos esperava, ao conseguir reabrir os olhos, viu à sua frente um magnífico anjo. Este tinha olhos em suas asas, além dos que possuía no rosto, com um terceiro no centro de sua testa. Seus passos espalhavam triângulos de luz. Por mais que sua vista queimasse, não queria prescindir daquela visão, que difundia um inaudito deleite por todos os seus poros. A vergonha sentida só aumentou, tanto que caiu de joelhos, pedindo perdão em lagrimas: “Santo anjo de Deus, me desculpe! Ou melhor, sei que é a Deus que tenho que pedir perdão! Pelos erros que cometi na Terra, que não pude corretamente pesar, e pelos erros que cometi desde que cheguei aqui! Então este não é o Inferno! Trata-se do Purgatório, não é assim? Lamento muito por ter duvidado da misericórdia divina, e por ter me rejubilado com a desgraça dos meus irmãos! Mas tenha piedade de minha alma. Sou um ignorante, fui tentado pelo Demônio e caí na Tentação! Sei no entanto que o Senhor pode me resgatar. Afinal, enviou seu próprio filho para morrer na cruz pelos pecadores, pelos que são como eu. Salve-me, anjo! Estou sinceramente arrependido!”, de seus ferimentos ainda saía sangue, porém não se importava mais com nenhuma dor; pareciam estar suspensos na escuridão, quando Raimundo tocou a base da túnica do anjo.
No ato, sua mão queimou inteira; efetivamente: o puro fogo a agredia, e por isso se pôs a gritar. Levantou a cabeça: seus olhos não ardiam mais, o cenário da caverna retornara, com os cristais agora negros, e o anjo sorria sordidamente. Os olhos de suas asas se fecharam e disse: “Não me reconhece?”
“Eu nunca o vi antes!”, respondeu ingenuamente ao apagar do fogo; o sangue tinha parado de sair de suas feridas, em poucos instantes cicatrizadas com perfeição. Não havia mais dor. Porém a dúvida produziu o medo.
“Sou o maior dos serafins.”, o anjo demorou um pouco a replicar, os olhos de sua face cravados no ex-cruzado.
“Sou ignorante em matéria de anjos.”
“Eu sou Lúcifer.”, e para seu maior horror, Raimundo reconheceu no anjo caído o homem de preto com o qual estivera após sua morte: já era o diabo, que podia assumir muitas formas, e estava no Inferno. “Há muito tempo que, sem perceber, você renega Cristo. Agora finalmente é meu.”, sua voz era tenra, quase feminina.
O chão a seus pés tornou a desaparecer, só que desta vez Raimundo despencou, e não parava mais de cair. Difícil dizer se permaneceu nessa condição por horas, dias, meses ou anos. Impossível se apagar ou sentir sono. O grito era contínuo.
Quando o tormento da queda enfim aparentou ter chegado a seu término, estava em um lugar de lama negra onde parecia não haver ninguém. Equivocara-se na primeira impressão: emergiram asquerosas serpentes pretas, de cabeças largas, grosseiras, e orgulhosos olhos amarelentos. Como sua espada surpreendentemente reapareceu em sua mão esquerda, tendo se esquecido dela desde que principiara o seu despencar, não hesitou em voltar à luta. Decapitou as aberrações para depois, ofegante, ajoelhar-se com as mãos apoiadas no lodo escuro. “Tudo uma farsa! Tudo é uma farsa...”, foi o que conseguiu dizer, levando um susto ao ver indivíduos mascarados, de roupas coloridas, que ensaiavam falas que lhe pareciam sem sentido:
“Você já viu um cão azul?”
“Jamais! O que eu gostaria de saber é quantos anjos podem dançar na ponta de uma agulha!”
“Eu acho que há fezes no Paraíso. Afinal, há vacas! E onde há vacas, há moscas!”
“Deus tem quantas cabeças? Uma de homem e outra de mulher?”
“Eu já vi uma armadura vazia lutando.”
“E eu vi as ilhas barbudas do Lago de Garda!”
“Malditos longobardos!”
Não conseguiu atacá-los. Não via motivos para isso. Até que um deles retirou sua máscara, enquanto os outros sumiram. Reconheceu Lúcifer.
“Desgraçado, filho da puta...”, ladrou.
“Não sou filho de nenhuma mulher. Portanto, infelizmente, não posso ser filho de uma meretriz.”, respondeu o anjo caído. O ex-cruzado tentou atingi-lo, mas sua espada se partiu na tentativa, o Demônio desaparecendo do nada.
Desarmado, Raimundo não permaneceu só por muito tempo. Um cachorro furioso o atacou: um cão negro e grande, de olhos vermelhos. O guerreiro foi derrubado e lutou contra o animal no chão, primeiro procurando estrangulá-lo, evitando que os dentes afiados alcançassem sua “carne”. Depois, ao perceber que o cão tinha o pescoço muito duro e forte, mudou de estratégia: manteve no pescoço do animal bravo uma de suas mãos e com a outra tentou cegá-lo usando os dedos. Contudo, só os sentiu queimar ao enfiá-los naquelas pupilas. Retirou-os bruscamente, e teve sua mão mordida. Com a outra, não conseguiu mais segurar o cachorro, e logo sua garganta estava sendo dilacerada.
Ouviu gargalhadas. Mas, embora sentisse dor, não podia morrer: e sua ira fez seu sangue fervilhar e contra-atacou contra o cão feroz ao materializar uma lança em suas mãos. O sofrimento “físico” ficou de lado. Perfurou a cabeça do animal. Não esperava que fossem surgir outras duas, lateralmente. Precisou se livrar também de ambas, até a fera despencar. A criatura afundou na lama.
No entanto, reemergiu segundos depois, quando Raimundo começava a se preparar mental e emocionalmente para ir adiante, com uma outra aparência. Não tão nova assim, ao menos não para o ex-cruzado: o cachorro diante de seus olhos agora, por mais machucado que estivesse, repleto de úlceras, era Bertrando, seu velho amigo de infância, o animal que o consolara das surras e insultos que recebia de seu pai. Lembrava-se de como gostava de abraçá-lo, de sentir seu pêlo macio, enquanto o bom companheiro lambia suas feridas com carinho. Nunca tinham precisado trocar palavras para se entender. Bastava que apenas o jovem Raimundo falasse, baixinho, enquanto o cão correspondia com atenção, ternura e companhia.
“Não, Bertrando...Não pode ser você aqui. Você não merecia isso...”, e o cachorro não se aproximava, gemendo de dor e com uma terrível expressão de medo. Quando Raimundo tentou se aproximar, o cão ameaçou fugir. “Por quê? Por que parece estar com medo de mim?”
“Ainda pergunta, pecador infame?”, um homem em armadura completa, mas cuja cabeça era a de um gato, despontou às costas do ex-cruzado, que de imediato o reconheceu, encarando-o com desprezo: “Você outra vez...”
“Digo o mesmo.”
“Você que vem até mim. Eu não o procuro.”
“É o que pensa.”
“O que fez com Bertrando?”
“Eu não fiz nada. Minhas mãos estão limpas, veja! Ao contrário das suas, imundas de sangue! Foi você que feriu Bertrando.”
“Se está se referindo ao monstro que me atacou, é óbvio que não era ele, e sim um dos seus servos. Bertrando nunca iria querer me matar!”
“Você ainda não se deu conta que o meu não é um reino de morte? Pode ser um reino de sofrimento e luta, porém não é de morte. De qualquer forma, deixando os detalhes de lado, fique plenamente ciente que a fera que o atacou era sim o próprio Bertrando.”
“Se é assim, foi você que o tornou uma aberração e o colocou contra mim, para que lutássemos, nos feríssemos e acabássemos nos odiando! Maldito seja! Mil vezes maldito!”
“Apenas mil? Está sendo moderado, Raimundo.”
“Não vou perdoá-lo nunca pelo que fez a Bertrando! A minha amizade com ele era sagrada!”
“Você pode tê-lo de volta, se quiser...”
“Não vou ceder às suas falsas ofertas e tentações!”, atacou Lúcifer, que desapareceu, assim como o pobre Bertrando. O cenário começou a se alterar. Poucos segundos se passaram, e Raimundo estava em um vale seco, mas sempre violento, ainda que não houvesse derramamento de sangue: pois todos ali eram seres de ossos, sem pele, sem carne. Olharam-no com intensa cupidez. Era o único ali com uma aparência sadia.
O céu amarelo opaco se tornou rubro. O ex-cruzado se preparou, com a lança que trouxera consigo, para mais uma furiosa batalha.

III

No transcorrer de sua luta, Raimundo passou a ser observado por um indivíduo de aparência ameaçadora, que se encontrava no topo de uma colina escura, repleta de agulhas e espinhos. Estes haviam se curvado e se desviado para que ELE passasse por ali, em nenhum momento ferindo as patas de seu cavalo alado. O animal era tão negro quando a armadura polida que seu dono possuía.
Sua face era mantida oculta pelo capacete, escapando somente dois olhos de fundo dourado e íris pretas. Devia ter por volta de três metros de altura, seu cavalo portanto ainda maior. Não parecia ser um mero espectador, ao passo que o ex-cruzado entrara em um estado de frenesi em que nada aparentava ser capaz de pará-lo, arrebentando os ossos de seus inimigos e se deliciando com o que via e recebia em seus lábios: o deslize de um sabor de violência pura, que começava a encantá-lo. Seu semblante era cada vez menos humano, seus dentes dando a impressão de crescer e de estarem se tornando afiados.
“Como essa sensação é boa...Já que estou mesmo no Inferno, vou me entregar ao mal! Mesmo que seja para destruir o próprio Inferno!”, foi o que refletiu a uma determinada altura, de repente se dando um relâmpago, que ofuscou sua vista e paralisou seus movimentos: quando reabriu os olhos, era o cavaleiro negro que descera, dizendo: “Este é meu reino! Eu o conquistei, e você nunca poderá destruí-lo, pois um imenso abismo nos separa. Mas você poderá se tornar meu melhor vassalo! Há alguns que nascem para reinar, e outros para servir. Garanto-lhe ao menos que servir no Inferno, tendo à sua disposição prazeres e regalias, é melhor do que servir no Céu, onde apenas lhe são cobradas obrigações, sem que nada lhe seja dado em troca! Aqui não é preciso abrir mão dos frutos das suas ações; prove e sinta como é delicioso!”, Raimundo já sabia que aquele era Lúcifer; de todo modo, não conseguiu contestá-lo ou resistir à sua energia e à sua intenção, pegando o fruto vermelho de aparência suculenta, semelhante a uma maçã, que lhe foi lançado; também não resistiu a abocanhá-lo, enquanto ao redor os outros seres ou fugiam, ou se escondiam, ou se prostravam, não resistindo ao peso que se impunha sobre seus ombros, humilhando-se para louvar o senhor do Inferno ou para lhe pedir favores.
Lúcifer não lhes dava a mínima importância, seu cavalo chegando a pisotear alguns, queimando os poucos que tentaram subir pelo dorso do animal.
Ao provar o pomo, após uma primeira sensação deliciosa, Raimundo sentiu seus lábios queimarem. De súbito, todo seu corpo estava pegando fogo, assim como o fruto, que rapidamente se transformou em uma labareda.
“Maldito, por que fez isso comigo??!”, indagou em fúria, lançando-se ao ataque contra o Demônio.
“Não fui eu! Foram as suas próprias intenções destrutivas, que exalavam do seu coração e da sua mente! Apenas agora é que irei puni-lo, não pelo que pensou, mas por estar me desafiando explicitamente!”, desembainhou sua espada negra, cuja lâmina exibia diversos símbolos de obscura sabedoria mágica, e não só Raimundo foi reduzido a pó como todas as outras criaturas do local, instantaneamente incendiado, ao passo que o cavalo se transformava em dragão. A armadura por sua vez se transformou em corpo, em músculos maciços que mantinham o negrume límpido do metal; grandes asas, de penas cinzentas, desgastadas, foscas, algumas chamuscadas, outras com sangue respigado, se abriram nas costas de Lúcifer.
Logo todas as cinzas estavam reunidas no interior de uma ampulheta. Eventualmente se viam formar nesta alguns rostos, que não conseguiam se estabilizar. Até que o Demônio paralisou a face de Raimundo.
O instrumento que o continha e a outras almas era levado para o alto, para o céu vermelho agora riscado por relâmpagos. Enquanto o segurava, Lúcifer parecia observá-lo com mórbida admiração por seu próprio poder. O ex-cruzado afinal conseguiu indagar, sua expressão carregada de intenso sofrimento: “O que você quer afinal? Por que me tortura tanto?”
“Você ainda não compreendeu, Raimundo? Como não conseguiu entender que o quero ao meu lado e, sobretudo, que não desejo lhe fazer nenhum mal? Todo o sofrimento que está vivenciando é exclusivamente de sua responsabilidade! Eu estou lhe estendendo a minha mão, com todas as minhas forças e a minha bondade.”
“Se me quer mesmo como seu servo, então me tire daqui.”
“Agora sim suas palavras estão soando mais sensatas e agradáveis aos meus ouvidos.”
“Não pense que o admiro e que o servirei por livre vontade. Mas vejo que não tenho nenhuma outra escolha.”
“Sei que não é do tipo fácil de dobrar. Se fosse, eu não teria me interessado por você...Aprenderá a me admirar com o tempo; em nosso início, o importante é que me respeite, e que conheça seus limites em relação a mim. Rei, de todo modo, nem mesmo na Terra você era. O que não significa que não poderá, estando em meu exército, algum dia influenciar soberanos daquele mundo inferior...”
“Achei que o Inferno fosse inferior à Terra.”
“Jamais! A realidade é que não somos inferiores a nada.”
“Talvez eu acredite nisso quando for retirado daqui.”
“Já renegou seu querido cristo?”
“Cristo, um hipócrita que promete o Paraíso e deixa os que lutaram em seu nome precipitarem no Inferno? Que sofreu por si mesmo, para ascender ao Céu e ficar ao lado do pai, e que mentiu dizendo que estava sofrendo por todos? Prefiro nunca mais ouvir falar dele.”, palavras que fizeram com que o sorriso de Lúcifer se expandisse ferozmente; depois vieram risadas, dadas também pelo dragão que o Demônio montava: talvez se tratassem de uma única criatura.
A ampulheta transformou-se em clepsidra. Toda a areia foi dissolvida em água. Raimundo se sentiu afogar. Seus olhos foram inundados. Ao conseguir reabri-los, após alguns minutos, encontrava-se em um ambiente úmido, com um cheiro forte de maresia, e, além de molhado, não estava só. Ao seu lado, o que pareciam ser mendigos surrados, de dentes partidos e gengivas repletas de ferimentos. De algumas feridas, emergiam diminutíssimos vermes; entres restos de comida, moviam-se larvas escuras.
Sentiu sangue em sua boca; dominou-o uma queimação rubra e flácida, que nas trevas deixava entrever um arrasto feroz e ardido.
Viu depois à sua frente um grupo de esqueletizados, que se arrastavam mais do que andavam, raspando e ferindo suas barrigas inchadas no piso sujo e áspero. Sentiam necessidade de urinar e defecar; era para eles impossível resistir a isso.
Acabou se dando conta que estava em um navio. Em um calabouço de madeira que viajava por um dos mares do Inferno; um barco tétrico e amaldiçoado.
Um homem que lhe pareceu de todos o mais repugnante, repleto de manchas sangrentas e com alguns ossos expostos, que saltavam para fora da pele, começou a lamber as paredes e o chão, enquanto sua língua ia inchando e rapidamente se enchendo de moscas. Levou um susto quando, ao fitar com mais atenção o rosto do sujeito, reconheceu que eram idênticos: como um reflexo seu no espelho, ainda que imundo, doente, machucado e distorcido.
Após um sorriso abjeto, a criatura desapareceu.
“De que forma afinal ele vai me usar? Estou ficando farto de tudo isso...”, Raimundo conseguiu refletir, com certo esforço, tomado de um cansaço brusco e avassalador.
“Calma, não se impaciente!”, voltou a ouvir a voz de Lúcifer, o que não era mais, de forma nenhuma, surpreendente. “Logo estará em meu palácio.”
“Pare de prometer e faça!”
“Você não está em posição de me intimar a nada.”, e as águas trevosas engoliram com raiva a embarcação.

IV

O palácio de Lúcifer estendia-se por um mar congelado. Presas no gesto estavam as almas dos mais ignóbeis traidores, condenadas à paralisia e ao frio absolutos. O céu era total e constantemente branco. Apesar da ausência de um sol, emitia uma claridade difusa e agressiva, que não aquecia, apenas dificultava ou mesmo impedia que os fracos e não autorizados a andar por ali pudessem enxergar.
A fortaleza em si era negra, de muros ásperos, com frestas diminutas que permitiam uma mínima entrada da luz. Tinha três torres, cujos topos lembravam três cabeças de dragões. Em seu interior, predominava uma falsa tranquilidade, um silêncio que Raimundo estranhou ao despertar em um de seus frios corredores. Aquela quietude não o deixava calmo, pelo contrário, dificultava seus movimentos e dava a impressão que a qualquer momento poderia surgir das trevas um inimigo. Uma atmosfera de espectros que intimidavam mesmo quando não existiam. Sentiu-se por um instante tentado a realizar uma oração, só que nessa hora a dor que recebeu foi equivalente a dezenas de punhais cravados de uma vez em sua carne. “Não ouse!”, escutou uma voz agressiva, e em segundos Lúcifer ressurgiu, novamente revestido por sua armadura negra. Guiou-o então, flexibilizando seus movimentos, sem necessidade de palavras, até um aposento cuja porta estava aberta. “É aqui. Não tema. Logo irá se tornar meu soldado.”, disse.
Havia no chão um círculo mágico, repleto de inscrições e símbolos intricados, em cada canto do ambiente uma estátua. Estas pareciam ser de anjos. Enquanto os corredores anteriores davam uma impressão de pedra velha e embrutecida, o piso deste quarto era de um mármore negro e polido.
Raimundo sentiu-se impelido a olhar para cima, havendo no teto um círculo mágico idêntico ao que existia embaixo. O ex-cruzado se posicionara no centro.
“Acima como abaixo! Um sábio disse isso uma vez. Embora ele não tenha sido meu amigo, sou obrigado a reconhecer que estava certo.”, Lúcifer voltou a falar. “O universo é feito de correspondências. E o que está abaixo não é inferior ao que está acima! Ambos são necessários e se complementam. Com a vantagem para nós, é claro, que temos mais prazeres e liberdades à disposição! A Terra sim que é inferior aos dois grandes mundos, pois se encontra e se perde no meio destes, é como um amplo campo de batalha; e os homens são inferiores aos anjos e aos demônios, pois podem ser facilmente manipulados por ambos. Mas você já não é mais puramente humano...E em breve não será nada humano. Quando isso ocorrer, ainda que se torne meu servo, experimentará uma liberdade que jamais vivenciou antes.”
“Essas estátuas parecem ser de anjos.”, Raimundo observou uma das esculturas.
“Já lhe disse: acima como abaixo. Observe bem: olhe para o arcanjo Uriel! Grande e majestoso em sua armadura, sólido, portando uma lança que se cravada no peito de um demônio comum pode reduzi-lo a cinzas em um instante! Mas Uriel tem sua sombra...”, e a estátua se transformou, para a surpresa de Raimundo, tornando-se um maciço demônio de chifres recurvos e cabeleira desgrenhada. “Eis Baal! Um dos três príncipes do Inferno! O príncipe da terra, causador de terremotos que podem ceifar centenas de vidas humanas de uma só vez.”
“O que afinal é um príncipe do Inferno?”
“Eu vou chegar lá. Olhe primeiro para Gabriel, com sua face lunar, mensageiro branco e celeste, de asas tão sublimes!”, a estátua de Gabriel foi grotescamente se transformando, suas asas rachando e desagregando-se, virando pó; o anjo foi se tornando uma criatura que lembrava um crocodilo, um dragão aquático sem asas, cujas escamas aprisionavam cada qual uma face atormentada. “Este é Leviathan, príncipe da água, senhor das profundezas que abrigam aqueles que se perdem na tristeza e no medo. Enquanto Baal incentiva os humanos ao materialismo, à descrença nas realidades que transcendem a carne, estimulando a luxúria e o apego aos objetos, às posses, à prata, ao ouro, Leviathan e suas hostes lançam chuvas de receios, inseguranças e desesperança; provocam os amores impossíveis, que esquivam a atenção dos homens do amor que pode estar a seu lado.”
“Mas o que vocês ganham com isso? Qual a vantagem em desviar os seres humanos, afinal?”
“Você disse bem. Nós apenas desviamos. Porque o pecado está no próprio coração do homem. Ele pode ou não aceitar esse desvio...Está em seu livre arbítrio. Nós não forçamos ninguém! E ganhamos de todo modo muitos escravos, que nos servem passivamente e nos fornecem sua vitalidade, já que nem todos têm qualidades para serem soldados e nos servirem de forma ativa! Isso além de levarmos adiante nossa aposta com o Criador: enquanto Ele e os anjos apostaram que no fim dos tempos a natureza generosa do homem irá prevalecer, nós não acreditamos nisso; nossa crença é que no ser humano prevalecem a crueldade e o egoísmo. Nunca iremos nos curvar aos humanos; jamais nos rebaixaríamos a ser guardiões e protetores de uma criatura abjeta, inferior a nós.”
“Quando diz nós, se refere a vocês, príncipes do Inferno?”
“De certa maneira, pois não sou um príncipe. Sou o REI do Inferno...E me refiro também às minhas hostes primordiais e às de cada príncipe. Entenda: cada grande arcanjo do Céu tinha a seu lado outro, criado à sua imagem e semelhança, a fim de auxiliá-lo em sua missão; algo análogo a um irmão gêmeo no plano humano. Só que esses gêmeos se negaram a trabalhar em auxílio dos humanos: eu fui o líder dessa rebelião, e o primeiro a descer ao que restava do caos primordial; seguiram-me Baal, Leviathan e Belzebú, que naquele tempo possuíam outros nomes, e que tinham surgido respectivamente como irmãos de Uriel, Gabriel e Rafael; e depois desceram outros anjos, de categorias inferiores, inspirados por nosso ímpeto, que formaram as hostes primordiais de cada um de nós. Nós moldamos os resquícios do caos, gerando este lugar: o Inferno. Antes disso, as almas humanas que se distanciavam do Criador ficavam apenas pairando no vazio. Veja: fizemos um grande bem a essas almas miseráveis, que passaram a ser atraídas para cá; melhor do que ficarem perdidas no nada, algumas ganhando a oportunidade de se tornarem nossos soldados. Assim surgiriam novas hostes nossas, constituídas pelos que um dia foram humanos, como será o seu caso. E a aposta com o Céu foi feita.”
“E o que acontecerá se o Céu vencer a aposta?”
“Eles não vão vencer!”, Lúcifer liberou uma gargalhada. “Se isso por acaso ocorresse, muitas almas que estão aqui seriam resgatadas, e nós que passaríamos a servi-las. Mas nós iremos vencer! E quando isso se der, no fim dos tempos havendo mais almas no Inferno do que no Céu, que é como está a situação atual, e duvido muito que ocorrerá uma reviravolta, nós poderemos ficar com elas em definitivo, e teremos novamente acesso ao Paraíso e ao Criador, sem que para isso precisemos nos curvar a qualquer exigência ou restrição! Não haverá a necessidade de se abrir mão de qualquer coisa que conquistamos! Nenhum arrependimento!”
“Mas nesse caso, os soldados leais a vocês também poderão entrar no Paraíso?”
“Eu não disse isso.”, voltou-se sombriamente, após um rápido êxtase que o levara a desviar sua cabeça e seus olhos para o lado da estátua do arcanjo Miguel. “Afinal, vocês foram humanos. Apenas os anjos de outrora terão esse direito. Mas não se preocupe: terá muita diversão por aqui.”
Vocês...Parece que já me considera seu soldado.”
“É um bom observador, Raimundo. Isso é ótimo. Acredito que tenha percebido que estou sendo muito sincero nesta conversa. Dizem que sou o pai da mentira. Mas isso é uma calúnia!”
“A estátua para a qual estava voltado...”
“É a do arcanjo Miguel, meu irmão. O comandante do exército celestial. Já eu sou o rei do Inferno e senhor da luz e do fogo. Da luz do orgulho...E das chamas da ira.”, de súbito a armadura de Lúcifer ficou vermelha, e o Demônio pegou fogo; tornou-se uma imensa tocha viva, apavorando Raimundo, que não se mexeu. “Não tema, pequeno.”, disse a seguir. “Não há razão para um rei destruir seu soldado, a menos que este lhe seja desobediente. Até mesmo a estupidez pode ser perdoada, havendo coragem.”, e apontou para a última estátua, de um arcanjo com aparência de efebo, as sandálias e o elmo alados, segurando um caduceu em uma mão e uma cruz na outra: “Quanto àquele, não devemos nos esquecer dele, é Rafael. Sua sombra é Belzebú, príncipe do ar, o mais astucioso dos demônios, que deturpa o pensamento dos homens, que os conduz a ideias perversas e perniciosas, e que tem grande prazer em provocar a loucura.”, a estátua desta vez não se limitou a se transformar: adquiriu carne, ainda que apodrecida, surgindo um ser pálido e enrugado, de cabelos negros compridos e olhos desbotados, vestido em farrapos, envolto por moscas. Belzebú em pessoa viera. “Não chega a ser uma surpresa vê-lo aqui.”, disse Lúcifer, com os olhos incendiados, enquanto o outro encarou o ex-cruzado. Para Raimundo, frente a frente com um sorriso terrivelmente sórdido, foi impossível conter o tremor de seu “corpo” e quase caiu, com dificuldades para se equilibrar e sentir o chão sob seus pés. Sua cabeça pareceu se encher de ar, vieram tontura e vertigens, e os piores pensamentos possíveis se avolumavam em seu peito, dificultando a respiração. “Sei que é o mais curioso de todos nós. Mas contenha a sua força! Não se esqueça que ele ainda é um novato.”
“Perdoe-me, meu rei. Mas escutei uma nova voz, senti um novo cheiro, e não pude deixar de vir. Sabe o quanto sou perceptivo.”
“Ainda assim, precisa ser mais sutil para não esmagar as pequenas larvas.”, e algumas moscas deixaram Belzebú para cercarem Raimundo; com elas por perto, pouco a pouco, o ex-cruzado foi se estabilizando novamente, apesar do estômago embrulhado e da respiração ofegante.
“Peço mais uma vez que me desculpe, mas quero acompanhar a iniciação.”
“Nem pense em olhar para ele com cobiça. Será membro das minhas hostes.”
“Claro! E que honra...Servir diretamente ao rei, não a um dos príncipes!”
“Um prêmio merecido...”, sob os olhos de Belzebú, Raimundo viu Lúcifer se aproximar, colocando sua mão esquerda inicialmente gelada sobre sua testa. Esta começou a esquentar, fazendo a fronte do ex-cruzado arder mais e mais à medida que o senhor do Inferno despejava em um estranho idioma palavras de magia trevosa, que foram aos poucos se tornando mais exaltadas, ferozes e violentas, lembrando urros, rugidos e até trovões. Embora o chão não tremesse, o guerreiro sentiu como se isso estivesse ocorrendo. Belzebú e o que havia ao seu redor passavam a ser meras sombras, enquanto as moscas do príncipe infernal eram desintegras por um fogo que não iluminava. Raimundo se manteve de pé e, ao Lúcifer se afastar e silenciar, relâmpagos vermelhos subiram pelo círculo mágico de baixo e desceram pelo de cima, atravessando o ex-cruzado e permanecendo, mostrando-se indispostos à extinção. Nessa hora, foi tomado pelo maior sofrimento que já experimentara, não conseguindo mais parar de gritar, as mais atrozes dores físicas somando-se a todas as suas dores emocionais, às suas recordações mais sofridas; teve a impressão que iria desaparecer, deixar de existir, e amaldiçoou a tudo e a todos.
“Você está indo muito bem...”, escutou a voz de Lúcifer, que evidenciava um cruel sorriso. “Continue assim depois que sua iniciação estiver consumada, fortaleça-se no ódio, na ira, no orgulho de ser o que é, e poderá enfrentar anjos e submeter magos, ao voltar à Terra manipulando os que acreditarem poder manipulá-lo e dirigindo os poderosos ignorantes, que ao ouvirem sua ardilosa voz acreditarão estar tendo ideias extraordinárias! Por não o enxergarem e não terem discernimento em relação aos seus próprios pensamentos, serão suas marionetes, reis e senhores que na prática não passarão de escravos!”, os raios foram transformando a aparência de Raimundo; ao cessarem, concluída a metamorfose, ele emitiu um último urro, que se iniciou grave e terminou horrivelmente agudo. Caiu de joelhos. “Não dessa maneira! Levante-se!”, Lúcifer o incitou; o ex-cruzado já sabia que não era mais humano, o que lhe foi definitivamente confirmado pelo espelho na parede adiante, no qual não reparara antes, ou que o senhor do inferno acabava de fazer surgir: tornara-se uma criatura de asas que lembravam as de um morcego, nenhum cabelo ou pêlo por seu corpo de pele vermelha e luzidia, em sua cabeça dois chifres curvos, garras em lugar de unhas, dentes de fera, língua bifurcada como sua cauda espinhenta. Os olhos eram amarelos de íris negras, sem pálpebras, e pareciam gemer em desespero. Em lugar de orelhas e nariz, orifícios.
“Sou um amaldiçoado.”, disse Raimundo, tomado pela tristeza, enquanto tocava seu pescoço musculoso. Crescera em altura e vigor. Sentia-se “fisicamente” leve, e ao mesmo tempo incrivelmente pesado em sua mente e em seu coração.
“Não diga uma coisa dessas. Você é um abençoado. É meu novo filho.”, replicou o rei do Inferno.
Belzebú, que seguia por perto, cruzou os braços e deixou que surgissem novas moscas, vermelhas, que pousaram aos pés do novo demônio.
“Sei que não está sendo sincero.”
“Você não sabe de nada ainda. É só um pequenino. Afoito e inexperiente. Vou lhe ensinar tudo o que precisa saber. Não tire conclusões precipitadas. Não tenha pressa.”
“Por acaso vou ganhar um novo nome?”
“Evidente que sim. Afinal, nomes humanos, terrenos, não combinam com demônios.”
“Como imaginei.”
“Mas repito para que não se deixe arrastar pela pressa. O novo nome deve ser perfeitamente condizente com a sua essência. Precisaremos nos concentrar juntos para obtê-lo, e então ele virá pelo fogo, marcando-o sob a sua pele.”
“Não temo mais nenhum sofrimento físico.”
“Diz isso porque acha que já experimentou tudo. Não se precipite, criança.”, e logo estariam os três voando pelos céus infernais, Belzebú na forma de uma enorme mosca; o rei e o príncipe demoníaco em silêncio: no meio dos dois, o jovem soldado, sucedendo-se paisagens de desolação e violência.
Ao voar, o demônio que um dia fora um cruzado estava se sentindo bem, mas concomitantemente era como se à medida que avançasse fosse se tornando cada vez menos livre.
Não era hora de sentir medo.
Mas teve raiva, que foi se avolumando, a fúria de suas asas dilacerando sua noite.
Sem perceber, ficou só.