sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Rosa e a Cruz



  Sinopse: Por volta do ano 1000 da era cristã, em um universo paralelo ao nosso, catástrofes naturais e ataques de demônios desolaram a humanidade e alagaram boa parte das terras, reduzindo as áreas habitadas a ilhas de diferentes dimensões, que foram se encastelando cada vez mais como defesa ao avanço das hordas do mundo inferior.

  Nesse cenário, para combater essas violentas criaturas, começaram a surgir guerreiros-sacerdotes no seio da Igreja, que logicamente não faziam uso de nenhuma forma de magia, proibida pelos padres, mas dotados de força e habilidades sobrenaturais que só podiam ser explicadas pelo sangue de Cristo introduzido em seus corpos. Denominados cruzados (nenhuma relação com os que existiram em nossa realidade) e investidos pelos padres vermelhos, estes os encarregados de guardar o Santo Cálice, pela graça divina recuperado em tempos tão difíceis, passaram a combater os demônios e contribuíram, com sua imagem de salvadores, para o estabelecimento do catolicismo romano como religião realmente católica, ou seja universal, a população de descrentes e seguidores de outros cultos se esvaindo pouco a pouco diante da única fé que dava mostras de ser verdadeira.

  Chegamos ao ano de 2012: os cruzados continuam a atuar, exterminando os seres do Inferno, que insistem em invadir a Terra, e punindo hereges, tornando-se assim fonte de riquezas para a Igreja, considerando que todo serviço requisitado aos padres vermelhos é pago, a menos que diretamente solicitado por estes em razão de alguma emergência.

  O poder se encontra todo nas mãos dos eclesiásticos; cada ilha possui um ou mais senhores, nobres que as governam, mas todos estão subordinados à Igreja. O tribunal da Inquisição é fortíssimo e atua com rigidez.

  Os cruzados permanecem sempre num número total de 12, em referência aos doze apóstolos, cada um desenvolve uma habilidade específica e suas armas e armaduras também são banhadas no sangue de Cristo e só podem ser restauradas e aperfeiçoadas por padres vermelhos ferreiros, espacializados nessa manutenção.

  Depois que se tornam cruzados, se têm menos idade envelhecem “naturalmente” até os 30 anos e se têm mais podem parar na idade em que estão ou rejuvenescer. Caso envelheçam por escolha própria, o que também é possível (havendo os que abdicam da juventude para não se mostrarem vaidosos), bastando a vontade, podem recobrar as aparências de jovens se mudarem de idéia. Morrem somente em batalha, resistentes a qualquer tipo de doença. Dormem pouco, alertas até durante o sono e cochilando quando querem em qualquer posição. Quase não precisam comer, só a cada sete dias, e aprendem com facilidade o idioma que desejarem.

  A Igreja pode autorizar o retiro de um guerreiro se este for digno de confiança e sob a condição que colabore quando requisitado, por exemplo treinando um aprendiz.

  Os maiores questionamentos tomam corpo porque os cruzados que caem no pecado acabam sendo possuídos por espíritos infernais (e de considerável poder), a exigência moral por isso, teoricamente, muito maior para esses homens. Contudo, o argumento de que Cristo deseja pessoas virtuosas, e que portanto seu sangue abandona o corpo do guerreiro quando este pára de praticar o bem desinteressado ao próximo, tornando sua carne mais vulnerável do que a de um humano comum à invasão demoníaca, como punição por sua impiedade, é contestado por testemunhas de ações claramente cruéis, arbitrárias e anti-cristãs, por parte de tais “paladinos”, que não resultaram em possessões. Quais seriam os motivos ocultos? Deus estaria testando a fé dos homens? O sangue do Salvador não os faz de forma nenhuma santos, apenas seres dotados de dons sobre-humanos que os capacitam a combater as hordas de Lúcifer; dádivas que são assim espadas de dois gumes. Ninguém, no entanto, ousa questionar abertamente a autoridade da Igreja sem sofrer as conseqüências. Em uma das mais claras ambigüidades deste mundo, como os seres humanos podem às vezes temer seus protetores?

  Sob este fundo, a perspectiva presente no livro do Apocalipse se torna uma revelação concreta: qual o papel do ser humano, que tenta resguardar a si mesmo, no conflito entre os anjos e os demônios, iniciado no princípio dos tempos? Para reflexão, as palavras de Paulo de Tarso: “não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas e contra as hostes espirituais da maldade nas próprias regiões celestes.”

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http://www.clubedeautores.com.br/book/142279--A_Rosa_e_a_Cruz

http://www.clubedeautores.com.br/book/142280--A_Rosa_e_a_Cruz

http://www.clubedeautores.com.br/book/142281--A_Rosa_e_a_Cruz#.U2fy9aLHgZM

http://www.clubedeautores.com.br/book/157604--A_ROSA_E_A_CRUZ#.U2fy_aLHgZM

http://www.clubedeautores.com.br/book/157605--A_ROSA_E_A_CRUZ#.U2fzAaLHgZM

   

  Para leitura online, seguem os links:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4180727

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4182156

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4795262

http://pt.scribd.com/doc/128586059/A-Rosa-e-a-Cruz-Vol-1

http://pt.scribd.com/doc/128586228/A-Rosa-e-a-Cruz-Vol-2


Saint Germain (sinopse e trecho)

 
Sinopse: Este livro apresenta ficcionalmente uma parte da história do conde de Saint Germain, narrada por diversas testemunhas através de cartas e diários. Quem foi afinal o homem misterioso que interagiu com tantas figuras da história, como os reis Luís XV e XVI da França, os filósofos Voltaire e Rousseau, o aventureiro Casanova? Tido como mago por alguns, como charlatão por outros, como explicar seus prodígios? Que espécie de homem podia ser capaz de circular na corte e manter um comportamento ascético?
De todo modo, fascinou os homens e as mulheres de sua época...

Seguem trechos da obra, que será lançada em um futuro próximo:


17 de Dezembro de 1745

Trecho de uma carta de Horace Walpole, quarto conde de Orford, erudito inglês que escreveria “O Castelo de Otranto”, a Thomas Gray, que viria a se tornar renomado poeta, autor de “Elegia Escrita em um Cemitério Campestre”.

Prezado amigo,

Em primeiro lugar peço perdão pelo tempo em que estive ausente, sendo que eis que assim que retorno a Londres, quando creio que já deveria haver uma alegre calmaria de ares de natal, obrigam-me a respirar agitação e conflito. Já ouviu falar do conde de Saint Germain? Imagino que não.
Há algum tempo, no Teatro Haymarket, apresentaram a ópera L'Incostanza Delusa, da autoria de um italiano chamado Giuseppe Ferdinando Brivio. Pelo pouco que sei dele, nasceu em Milão e é exímio violinista. Alguns o confundem com outro Giuseppe Brivio, tocador de instrumentos de sopro, que esteve presente em uma apresentação solene em Novara, no ano de 1711, em uma ocasião de homenagem às relíquias de São Gaudêncio. Àquela altura, Giuseppe Ferdinando Brivio era só uma criança. Sua primeira apresentação pública só parece ter ocorrido em 1720, como violinista da orquestra milanesa do Teatro Ducal.
Ah, a Itália! Aquela viagem não me sai da memória. Tantas as recordações caras em relação à arte! Tantas encantadoras celebrações e recepções! Ao mesmo tempo que não me conformo que tenhamos então nos desentendido. Sua partida para Veneza àquela altura turvou meu espírito, e o pior quando vim a saber de sua volta à Inglaterra pelo falecimento de seu pai. Senti-me culpado e hesitante, pensei em também retornar apenas para lhe dar meus sinceros pêsames, só agora me julgo relativamente confortável para lhe confessar isso, mas permaneci por medo que não me compreendesse e não aceitasse meus votos e minhas desculpas. Hoje, reconciliados, e com alívio digo isso, compreendendo que no que você me censurou foi com razão pela minha futilidade, só tenho a lamentar a inconstância do espírito dos homens, as exaltações que conduzem, com o amadurecimento, à decepção consigo, à percepção da banalidade de certos atos que pareciam necessários. Não seria muito melhor que fôssemos perfeitamente sábios e equilibrados? Talvez de fato fosse melhor, mas talvez mais tedioso, e não seríamos humanos.
A música de Brivio, quando a ouvi, transportou-me para um interior de fragilidades. Contudo, soube depois que os trechos que me tocaram em maior profundidade não eram seus. Partes de L'Inconstanza Delusa foram compostas por esse conde de Saint Germain, de misteriosa procedência, que pelo que ouvi dizer é também violinista.
Não se sabe se esse colaborador de Brivio é francês, romeno ou italiano. O que eu soube é que está na Inglaterra há pelo menos dois anos e que recentemente foi preso por suspeita de espionagem. Há quem diga que fez grande fortuna na América, no México, e que após se casar com uma rica senhora fugiu de lá com suas joias para Constantinopla. Seu comportamento, entretanto, parece ser o de um monge, de um asceta. Pouco se alimenta, bebe apenas água. Até o Príncipe de Gales manifestou curiosidade de conhecê-lo.
Sua prisão não durou muito. Logo foi solto por falta de provas. Mas coincidentemente, assim que recobrou a liberdade, ocorreram novas ações de conspiradores.
Isso por si não prova seu envolvimento, pois poderiam estar agindo agora para tentar culpá-lo (...)


22 de Dezembro de 1745

Trecho de outra carta de Horace Walpole a Thomas Gray

(...)
Graças a uma amiga em comum, Lady Jemima Yorke, hoje conheci o Conde de Saint Germain.
Seu conhecimento de línguas aponta para um homem viajado. Expressa-se em italiano e francês com facilidade, embora eu creia que não é falante nativo de nenhum dos dois idiomas. Seu inglês é bastante razoável e compreende o polonês. Minha suspeita é que seja nativo de Portugal ou da Espanha, ou de alguma de suas colônias na América, pois em ambas as línguas é impecável, segundo me afirmou um amigo ibérico.
Tocou violino para nós e também cantou. Sua voz é extremamente versátil e sua música tem muito de seu olhar, absorto e profundo, atento e instigatório, inteligente e alerta. Seus trabalhos instrumentais estão caracterizados por uma tocante expressão íntima nos movimentos lentos e por uma vivacidade virtuosística nos mais rápidos. Assim como em suas árias, parece ter ânsia de se manter liberto de qualquer corrente, ao mesmo tempo que em seu discurso valoriza a tradição, mostrando-se encantado com as obras poéticas do mundo antigo, das quais parece ser bom entendedor. Creio que vocês poderiam conversar por horas sem que nenhum dos dois se cansasse.
Não estou certo que seja um espião. Mas também não do contrário. O conde sabe ser reservado no que diz respeito à sua vida particular, evasivo nas questões que lhe fiz sobre esta. É habilidoso o bastante para não se comprometer, mas talvez tenha origens eclesiásticas, foi o pouco que consegui extrair, pela menção que fez a seus hábitos de oração e devido a seu comportamento austero. Apesar do bom gosto ao se vestir e das joias que utiliza, o que não é hábito de sacerdotes ou monges, algo em sua atuação como cavalheiro não me convence (...)


Excertos do diário de Jemima Yorke:

Londres, 30 de Maio de 1749 - Ah, o conde de Saint Germain! Que homem tão fascinante e misterioso! Ontem tive a oportunidade de acompanhar mais uma de suas performances. Nunca ouvi notas tão delicadas e sublimes em um violino como as que ele consegue extrair. Seu olhar também é único para nós, tanto quando o dirige como quando está compenetrado na execução de suas peças.
Todas as vezes que conversamos, ele me diverte. Além de sensível, é um homem culto que sabe não ser sisudo, diferentemente da maioria. É uma criatura bastante estranha, confesso: e minha curiosidade para com ele, para saber sobre seu passado, cresce a cada dia.
Nada revela, enquanto sabe falar de tudo com todos. Conversa sobre negócios com o Sr.Wray, discute filosofia com lorde Willoughby e procura ser galante comigo, com a senhorita Carpenter e com todas as jovens damas.
O que me parece é que ele tem pretensões de filósofo, de ser bem conceituado como tal: esse deve ser seu objetivo central, pelo entusiasmo que demonstra com lorde Willoughby. Gosto de ouvir suas exposições sobre a natureza humana e as leis da história. O restante das coisas, afora a filosofia, parece lhe servir apenas para satisfazer as exigências com relação a Les Manieres du Monde, ainda que muitos possam considerar as aparências como sendo partes reais de seu caráter.
Algumas damas deixam-se levar por belas palavras e gestos polidos, mas eu às vezes noto artificialidade em seus galanteios. Não parece estar realmente interessado em nenhuma moça. Nunca o vejo comer, e quase não bebe. Faz parte de seu mistério a impressão que me dá, de que é na verdade mais um asceta do que um cortesão.
Já cheguei a pensar que ele fosse um grande embusteiro. Mas não demorei a perceber que verdadeiramente possui um conhecimento incomum em diversas ciências. Quem será o conde de Saint Germain?

(...)


Saint Germain (trecho)

 
3 de Maio de 1700

Carta do agente da coroa inglesa Timothy Stealth, enviada de uma pequena cidade da Transilvânia, à sua jovem esposa em Londres

Minha doce e querida Emily,

Imagino que esteja preocupada comigo por todo este tempo que não lhe escrevi. Fique tranquila, pois estou bem, embora tenha passado dias difíceis. A situação na Transilvânia está bastante agitada. E creio que, para seu alívio, minha missão como observador está chegando ao fim. Os últimos acontecimentos são favoráveis à Inglaterra.
Há alguns dias, o príncipe Francisco Rákoczi II foi preso e já se encontra em uma fortaleza ao sul de Viena. Ele havia sido contatado pelos franceses para a causa da independência húngara. mas um espião austríaco interceptou sua correspondência e apresentou-a ao imperador, o que significou sua ruína.
Tive a oportunidade de conversar ontem com esse espião, que me confirmou o interesse do imperador, precioso aliado de nosso rei Guilherme, de intervir na Espanha caso o rei Carlos II morra sem deixar herdeiros. O que ao que tudo indica irá ocorrer, pois ele é fraco, doente e, segundo alguns dizem, incapaz de consumar um ato de amor. Por mais que haja malícia e maldade nas línguas de muitos homens e mulheres, como bem sabemos, não se trata de um tipo de informação que devamos negligenciar. O povo já lhe deu o cognome de “o Amaldiçoado”, o que para muitos é evidência de superstições e ignorância, mas os últimos fatos que me ocorreram me levaram a concluir que não devemos subestimar certas crenças populares e que há muito mais espectros, magia e coisas estranhas no mundo do que nossa vã filosofia pode supor.
Não quero que fique perplexa com esta minha última observação, embora acredito que vá ficar muito mais quando tiver terminado de ler esta carta. Sabe o quanto sempre fui cético e ponderado e, observando o tom destas palavras, que perceberá que é o mesmo que sempre empreguei, saberá que continuo são, que não enlouqueci. Não desejo assustá-la com os fatos que irei lhe expor, por mais que pareçam inverossímeis e estranhos. Só lhe peço que não mostre esta carta a mais ninguém. Que seja um segredo nosso, para que não desperte boatos e rumores infundados.
Adoeci seriamente há sete dias, após um horrível pesadelo que experimentei. Neste, ratos e baratas enchiam meu quarto e um morcego entrou, permanecendo imóvel no teto, a observar-me. Não conseguia me mover do leito. Havia uma luz frágil que provinha do lado de fora. E de repente os insetos começaram a escalar a cama e a andar pelo meu corpo. Continuava preso, como se correntes estivessem em meus braços e em minhas pernas, e foi em vão tentar gritar, enquanto os olhos do morcego se tornavam vermelhos, de um rubor aterrador e sangrento.
Despertei suando, sentindo como se a alma estivesse espancando meu peito, desesperada para fugir dele, com uma forte dor de cabeça e um incômodo estomacal. Fui conduzido pelos gentis funcionários da hospedaria a um hospital local, mas minha condição não melhorava, e os médicos acharam preferível me transferir para um hospital maior, em Hermannstadt.
Colocaram-me numa carruagem e partimos. Pensei que fossem meus últimos momentos. Nessa hora, não conseguia parar de pensar em você, minha doce esposa, cujas feições, porém, de forma abrupta, se turvaram em minha mente. Ao não conseguir mais recordar seu belo rosto carregado de ternura, apenas seu nome a martelar-me o coração, fui tomado de uma selvagem angústia, que me levou a urrar seguidas vezes. Os homens generosos que estavam me conduzindo ao hospital maior se esforçaram de todas as maneiras para me acalmar, consolando-me ora com palavras gentis, ora fazendo orações, até que um deles energicamente colocou a mão grande e pesada em minha boca. Foi nesse momento que me dei conta que estava sendo desrespeitoso com aquela boa gente e silenciei. Se não fossem cristãos sinceros, da melhor qualidade, poderiam simplesmente ter me jogado na estrada, e não pense que na Transilvânia as coisas são como na Inglaterra: no percurso entre uma cidade e outra, os caminhos montanhosos são ásperos, há poucos habitantes e nas florestas densas uivam lobos e outras criaturas que sequer os nativos sabem definir.
O pior é que muitos destes seres são agressivos e um, antes que alcançássemos Hermannstadt, se atirou sobre a carruagem. O cocheiro, após um grito, caiu enquanto o veículo revirava. Os cavalos relinchavam apavorados, mas mesmo eles logo se calaram naquele silêncio que sabemos ser o definitivo.
Fui retirado por um dos meus amigos. Além do mal-estar que sentia, o medo. Todos estavam muito assustados. E ao sairmos nos deparamos com o cocheiro, ainda no chão, apontando para a criatura que se banqueteava da carne dos animais.
Não sei como descrevê-la: minha visão não estava clara e o pavor talvez a tenha feito parecer ainda maior e mais escura, quase fundida à noite. O que se destacava eram suas asas. Dava a impressão de ter tanto penas como pêlos. Seus dentes eram extremamente afiados. O sangue de suas vítimas escorria por sua boca. Seu tamanho correspondia ao de um grande urso adulto de pé.
Meus acompanhantes berraram palavras aterrorizadas em húngaro e puseram-se a correr. Um tentou me arrastar. Justamente esse foi agredido pelo monstro, que não devia estar disposto a perder duas presas de uma só vez. Acreditei sinceramente que era o meu fim, enquanto a barriga do homem que tentara me salvar era aberta e suas entranhas devoradas. Minha náusea, à qual se somava o odor de morte ao meu lado, só podia crescer.
Ainda assim, realizando um considerável esforço, implorei alto por socorro em húngaro, romeno e inglês. Os outros já deviam estar longe, dando-me como morto. Mas quiçá uma caravana que estivesse passando por ali, com homens armados, me escutasse e agisse. Algo improvável, em que eu na verdade não acreditava, mas tinha que tentar, por respeito à minha própria vida e ao nosso amor. Ainda que sua imagem tivesse se desvanecido, não a esqueci sequer por um instante, minha adorada Emily.
Lutar era impossível. Porém, fazendo ainda mais esforço, procurei me levantar para tentar fugir. Talvez o demônio estivesse saciado e me deixasse em paz. Era uma última esperança.
Contudo, quando fiquei de pé, minha cabeça ardendo, meus pés com muito pouca firmeza, o olhar do monstro deu a entender que eu não iria longe. Era quase que inteiramente negro, com um ínfimo contorno branco. Sua crueldade não conhecia limites. Estava pronto para abandonar o cadáver do que tentara ser meu salvador para dilacerar meu corpo doente, quando um outro ser veio da floresta, e para meu alívio discerni formas claramente humanas. Não consegui ver o rosto com nitidez, mas se tratava de um vulto loiro, de estatura elevada, usando uma armadura e uma espécie de manto cerimonial vermelho. Em sua mão direita, uma espada. Cogitei que devia estar delirando, mas não estava: o que poderia parecer meu anjo da guarda partiu na direção do demônio, que resolveu parar de me encarar para avançar sobre o desconhecido. Tive a impressão que em volta desse homem havia uma luz, uma claridade dourada que não se costuma ver nas pessoas. Algo semelhante à aureola dos santos. Só que não era algo constante: às vezes eu a via, às vezes não. Por isso acreditei que fosse apenas uma impressão, causada por meu estado febril...Ou não?
Independentemente do que existia ao redor dele, era rápido e hábil, esquivando-se das garras do monstro, até conseguir cravar nele a espada. A criatura cambaleou e, após mais um golpe, que acredito que tenha sido no coração, despencou para não mais se levantar.
Eu continuava vivo! Estava sinceramente surpreso com isso. Olhei para as minhas mãos; abri e fechei os dedos. Depois fechei os olhos; tentei respirar fundo, por mais difícil e dolorido que fosse, pois minhas narinas ardiam. Ao reabri-los, tudo estava extremamente enevoado. Quase tudo era de um branco disperso e embaçado. Mas senti o homem à minha frente, e discerni seu vulto, o dourado de seus cabelos produzindo um agradável efeito luminoso. Seria porque alguma luz misteriosa de fato o cercava e eu estivesse percebendo mais do que meramente cabelos? E se fosse mesmo um anjo?
Ouvi ele me perguntar se eu estava bem. Como não respondi, ele riu e comentou algo como “que pergunta estúpida que acabei de fazer! Claro que você não está bem!”, com um bom humor e uma tranquilidade que me irritaram um pouco. Talvez tenha sido essa irritação que me fez perder os sentidos. Como alguém podia estar tão calmo e falar num tom tão alegre numa situação como aquela?
Ao acordar, com a sensação que desparecera e deixara de existir para voltar a existir anos depois, não havia mais nenhuma raiva. Estava muito tranquilo, a despeito de não ter ideia de onde me encontrava. Havia a discreta claridade de uma vela e estava deitado em uma maca. Voltava a enxergar com clareza. Nenhuma manifestação de dor ou febre. Nada de doença. Estaria na casa do meu misterioso salvador? Caso tudo tivesse sido real, não um pesadelo provocado pelo mal-estar, não via a hora de agradecê-lo. Levantei-me e empurrei a porta do quartinho, que era pequeno e estreito. Apesar do que ocorrera de terrível, da morte de um dos homens que tentara me ajudar e da aparição do monstro, estava torcendo para que não tivesse sido um delírio, para que não estivesse no hospital em um dia como qualquer outro, após ser devidamente medicado. Espero que não pense que eu havia enlouquecido, mas só conseguia pensar que tinha que ser um dia diferente!
Deparei-me com o que me pareceu ser um laboratório. E um homem em trajes comuns trabalhava em seus experimentos. Parecia ter trinta anos, pouco menos ou pouco mais, a barba e os cabelos loiros curtos. Seria quem eu pensava? Sorriu em minha direção e, diante de minha paralisia, falou primeiro: “Bem-vindo de volta à Terra, amigo!”, reconheci a voz: era o espadachim que salvara a minha vida.
Deveria em primeiro lugar tê-lo agradecido. Mas ainda me sentia frágil e inseguro. Tive que lhe perguntar: “Aquilo foi real?”, e ele me respondeu com outra pergunta, um sorriso levemente atrevido se formando em seu rosto: “Aquilo o quê? Você está se referindo à criatura?”, nessa hora, não tinha mais dúvidas que a experiência fora real.
Senti a tentação de retornar ao estado de pavor. Meu coração bateu alto. Mas não era possível: não na presença daquele homem, que se levantou do banquinho onde estava sentado e veio para mais perto de mim, tocando-me meus ombros e dizendo: “Você não está louco. Pode ficar tranquilo e seguro quanto a isso. Se estiver é só um pouco, na medida em que todos nós somos.”, havia em sua voz e em sua expressão uma bondade e uma alegria ímpares, de amplitude e serenidade inexplicáveis.
A total ausência de loucura é a ignorância absoluta, a cegueira em relação ao que de invisível nos cerca.”, continuou falando e pronunciou essa frase, da qual não irei me esquecer tão cedo, sobre a qual, estou certo, poderiam ser escritos livros e mais livros, tratados e mais tratados; o que no entanto, provavelmente, corromperia seu sentido mais íntimo, verdadeiro e profundo, entregue apenas por meio da síntese ao pensamento que não pode ser transcrito.
Depois que enfim manifestei minha gratidão, ia me apresentar e lhe dizer quem era. Senti-me tentado a lhe revelar tudo. Confiava totalmente naquele desconhecido. Mas ele me interrompeu, afirmou que isso não era necessário, que já sabia o bastante sobre mim.
Perplexo com tal afirmação, indaguei-lhe então sobre sua identidade. Mal havia me dado conta que estávamos conversando em inglês, e que o inglês dele era perfeito. Afirmou ser o conde de Saint Germain. Perguntei-lhe se era francês, e ele me respondeu que sim, mas que tinha posses e parentes na Hungria e na Romênia. Alegou estar ligado à casa dos Rákoczi, o que me causou embaraço, afinal minha missão em grande parte consistia em observar os movimentos de Francisco Rákoczi, suas ações no governo e investigar possíveis relações suas com os franceses. Talvez percebendo meu desconforto, as palavras involuntariamente ausentando-se, e devo ter ficado cabisbaixo, ele voltou a sorrir e me tocou o ombro, afirmando que estava feliz e satisfeito pela minha melhora, e que esperava que nunca mais eu ficasse em uma condição tão deteriorada.
Perguntei-lhe se era médico. Respondeu-me que praticava sim a arte da medicina, mas de uma forma desconhecida pelas massas, utilizando conhecimentos reservados a uma pequena parcela de sábios, pois se mal utilizados poderiam causar a ruína do mundo. Nessa hora ficou bastante sério e me deu as costas. Permaneceu em silêncio. Observando o laboratório ao meu redor, acabei por indagá-lo se era um alquimista.
Seu semblante, ao tornar a me encarar, ainda era bondoso, mas continha uma severidade que eu desconhecia por inteiro.
Já tinha ouvido falar antes sobre alquimistas e lido algo a respeito. Mas sempre com ceticismo e até com um certo escárnio. Já tinha rido muito com as desventuras de John Dee e Edward Kelley. A história de Nicolas Flamel sempre me parecera interessante, mas com doses excessivas de lenda. Quanto ao imperador Rodolfo II, célebre patrono da alquimia, sua obsessão pelas ciências ocultas aparentava ser somente mais uma de suas excentricidades. Quem não gostaria de fazer ouro a partir do chumbo?
De todo modo, já sabia que alquimistas sérios estão longe de ser charlatões vulgares. Podem estar equivocados ao acreditarem na existência de um elixir da imortalidade ou de um pó que transforme metais comuns em ouro, mas realizaram notáveis descobertas na medicina e na química. E os mais dedicados certamente conhecem muito mais sobre medicamentos do que qualquer médico comum.
O misterioso conde de Saint Germain (em minhas idas à França, nunca tinha ouvido falar dele) é uma prova disso. Após quase ter me arrependido da pergunta tendo em vista a enigmática expressão com que me fitou, confirmou-me ser um praticante de alquimia e um estudante de ciências ocultas. E mostrou-me o remédio que me dera, e que me curara de minha péssima condição anterior: pingara sobre minha língua sete gotas de um líquido vermelho, da cor do fogo mais vivo, e eu me restabelecera inteiramente em poucas horas. Negou-se a me revelar do que era feito, sequer um ingrediente da composição, e logo desisti de insistir. Não iria adiantar. Mas falou sobre a origem de meu mal e da criatura: eu, como poderia ter ocorrido a outro habitante dos arredores, tinha sido afetado pelas experiências de magia negra de um feiticeiro da região. O mesmo que, após evocar um duque do inferno sem o devido preparo, entregando-se à ebriedade do mal, terminara sendo agredido por um outro espírito infernal, que se manifestara em seu lugar. Um espírito de menor força e expressão, mas ainda assim terrível para o ser humano.
Após ser possuído pelo demônio, perdera a racionalidade e transformara-se na aberração que nos atacara. A metamorfose ocorrera em decorrência da perda de controle e da falta de conhecimento sobre os efeitos mágicos.
Para você talvez tudo pareça absurdo, mas para mim fez e faz todo o sentido. Só ficou a pergunta “por que comigo?”, e o conde me explicou que, apesar de minha ignorância, sou espiritualmente mais sensível do que a média das pessoas, portanto suscetível a experiências involuntárias com o sobrenatural. Senti-me tentado a pedir que ele me instruísse sobre esse mundo, mas tive medo e silenciei. Ele voltou a sorrir, e me aconselhou a orar com mais frequência, a pedir proteção a Deus e a meu anjo da guarda.
Confessou com certa melancolia que lamentava não ter conseguido salvar meu acompanhante, que quando sentira a presença e a ação do mal infelizmente já era muito tarde para isso.
Salvara ao menos uma vida, um tesouro que jamais pode ser contado.
E oramos juntos pela alma da vítima do feiticeiro, para sobre ela os demônios não terem nenhum poder.
O conde de Saint Germain é um homem de extraordinária fé, de intensa religiosidade. Após me restabelecer, não vi em volta dele nenhuma auréola. E me esqueci de perguntar a ele algo a respeito disso.
Espero contudo que haja uma oportunidade, pois ainda pretendo reencontrar esse homem que alega falar com anjos, o que não duvido, e que percebe e desvenda a atuação dos mais variados espíritos. Por isso o convidei para que venha à Inglaterra, que nos visite em breve, e lhe dei nosso endereço. Espero que não tenha nada contra isso, minha linda Emmy, afinal se não fosse por ele eu estaria morto, nunca mais poderíamos nos abraçar, e talvez sequer meu cadáver seria encontrado, apenas pedaços de carne dispersos em uma floresta escura da Transilvânia. Você sequer teria um túmulo onde rezar.
Não é dele que você deve ter medo, e nem de mim, se por acaso está pensando que enlouqueci, ou que o mal que me afetou ainda não passou por completo. Tema apenas os homens e os espíritos realmente malignos. Guarde esta carta com cuidado até o meu retorno, e após nos abraçarmos novamente conversaremos muito sobre ela.
Não sei se o conde de fato virá. Fiquei um dia inteiro com ele, que não me confirmou nada, apenas sorriu e agradeceu. O conde vive em um pequeno castelo cercado por árvores, num lugar que para muitos deve passar totalmente desapercebido.
No retorno à hospedaria, reencontrei os sobreviventes do incidente com o monstro, que ficaram pasmos por eu ter sobrevivido. Mantive minha palavra ao conde, que me pedira para não falar sobre ele a ninguém que não conhecesse tão bem quanto a mim mesmo.
Aleguei que por algum milagre de Deus a criatura me ignorara, e que depois fora socorrido por um competente e bondoso médico viajante, que se negara a revelar sua identidade, entregando-me um medicamento que me fizera perder os sentidos. Ao recuperá-los, ele já se fora. Em parte eu estava dizendo a verdade...E todos afirmaram que só podia ter sido a ação de um anjo.
Oficiais responsáveis pela segurança local tinham interrogado a todos eles sobre o desparecimento da vítima do endemoniado, em resposta a uma queixa dada pela esposa do pobre sujeito. Alegaram que haviam sido agredidos no caminho para Hermannstadt por bandidos armados com facas. Mantive essa versão quando vieram até mim, justificando minha sobrevivência com a alegação que, após perder os sentidos devido ao meu estado crítico, haviam acreditado que eu estava morto e me deixado para trás. Também aos oficiais falei sobre o médico, e me pareceu que desconfiaram um pouco da história, mas não levaram nenhuma investigação adiante.
Encontraram posteriormente os restos dilacerados dos cavalos e do pobre homem, a condição dos corpos atribuída não só às facas dos bandoleiros como a lobos famintos. Isso talvez soe egoísta, mas agradeci a Deus por não estar no lugar deles e mais uma vez orei pela alma do inocente.
Agora conto as horas para meu retorno à minha amada Inglaterra, para os braços de minha amada mulher. A vida em viagens e missões pode ser incrível, mas a existência comum, do amor sereno e da família, é muito mais valiosa e especial.
Talvez o que tenha escrito lhe pareça demasiado, mas muito mais haveremos de conversar.

Agora me despeço.

Com carinho e saudades,

Seu Timothy.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Lugubris


  Sinopse: Estamos no final da Idade Média. Em Lugubris, pequena cidade italiana, paira um clima sombrio de morte e horror. Arizal Cresces, mago e guerreiro, intervém para livrá-la de seu tirano, Girolamo Sensi, que, entrementes, foi possuído por um perigoso demônio. Este lançará sua maldição sobre o mago e, enquanto não a quebrar, Crescas terá uma rotina noturna peculiar e violenta, sob ataques constantes de espíritos perversos.
   Para auxiliá-lo, ao menos poderá contar com o velho alquimista Timorato, a ex-freira Chiara Savelli e o misterioso imortal Gregor Macmillar, um remanescente da Ordem dos Templários, outrora suprimida por Filipe IV da França.

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